V. 28, N. 53 Anacronismos
Organização de Davi Pessoa (UERJ) e Raul Antelo (UFSC)
Em Revolution and Restoration: The Politics of Anachronism (2025), o filósofo italiano Massimiliano Tomba propõe uma inflexão decisiva a respeito do anacronismo: deixa de ser compreendido como resto inerte ou erro temporal e passa a ser pensado como força política ativa, capaz de reconfigurar o presente. Contra certa narrativa linear da modernidade – que apresenta propriedade, democracia representativa e cidadania como culminação histórica – Tomba mostra que essas formas são, na verdade, dispositivos de exclusão, e que aquilo que é rotulado como “ultrapassado” (costumes, formas jurídicas, práticas comunitárias) pode reativar possibilidades não realizadas do passado. Nesse sentido, o anacronismo não indica atraso, mas a copresença conflitiva de temporalidades: conceitos carregam sedimentações históricas que podem ser reordenadas em momentos de crise, emergindo como alternativas políticas concretas. O passado, longe de ser um arquivo morto, aparece como campo incompleto, aberto à reinscrição, isto é, um canteiro de obras de práticas insurgentes que desafiam o “presente eterno” da modernidade capitalista. O gesto central de Tomba é, portanto, duplo: recusar tanto a nostalgia conservadora quanto a teleologia progressista. Entre ambas, ele situa uma política do anacronismo como dialética: não restaurar o passado, mas ativar suas tensões para produzir novos conceitos e formas de vida no interior dos conflitos sociais. Tomba argumenta que:
Anacronismo é um termo que geralmente possui valor negativo; designa o resquício de uma época anterior, algo que, quando existe, está em desarmonia com o presente. Trata-se de um erro que consiste em situar um fato cedo demais (procronismo) ou tarde demais (paracronismo). Se o termo “sincronismo”, que surgiu em 1588, indicava a coerência ou concordância entre diferentes eventos que ocorrem ao mesmo tempo, então o termo “anacronismo”, que apareceu posteriormente, no século XVII, passou a indicar um erro na determinação do tempo ou na sincronização. (Tomba, 2025, p. 6)
Nos estudos do crítico de arte francês Georges Didi-Huberman, o anacronismo não se trata de um erro a ser corrigido, mas a própria condição de inteligibilidade das imagens. Na concepção do teórico, sobretudo em Diante do tempo: história da arte e anacronismo das imagens, o anacronismo é fecundo quando o passado se revela insuficiente, constituindo até mesmo um obstáculo à sua compreensão. O anacronismo poderia ser pensado como uma “pulsação rítmica do método”, fosse ele seu momento. E aponta que: “Mais vale reconhecer como valiosa a necessidade do anacronismo: ela parece interna aos próprios objetos – as imagens – dos quais tentamos fazer a história. O anacronismo seria, assim, numa primeira aproximação, um modo temporal de exprimir a O crítico Raul Antelo, por sua vez, em “O arquivo e o presente”, argumenta que o anacronismo, mais uma vez, nos convoca os restos da história por meio de uma mesa de montagem. Lemos não apenas a ficção de uma arte nacional, mas também uma ficção familiar narrada como matéria pública e política. Em outras palavras: o anacronismo não comparece como desvio a ser corrigido, mas como procedimento de leitura: uma operação que desloca a obra de seu tempo para fazê-la vibrar em outras constelações. Ler anacronicamente é instaurar uma cena em que arquivos heterogêneos nos transmitem, por meio da arquifilologia, sobrevivências, produzindo uma escrita por montagem, por justaposição de intensidades. O passado, assim, não é origem estável, mas campo de forças que insiste no presente; e o presente, por sua vez, só se torna legível quando atravessado por essas irrupções. O anacronismo, na concepção de Antelo, é menos uma categoria temporal do que uma prática crítica: um modo de desorganizar a cronologia para expor, no texto, sua política fantasmal (tal como imaginada por Jacques Derrida, em Os espectros de Marx). Nas palavras do crítico:
Poderíamos dizer, em resumo, que uma política do anacronismo, como é a que se ativa toda vez que arquivo e memória se justapõem, implica, ao mesmo tempo, a inequívoca singularidade do evento mas também a ambivalente pluralidade da rede. a primeira impõe-se através da experiência; a segunda, através do arquivo. Este parti pris redefine o tempo em foco como tempo-com (como diferença ou diferimento, como con-temporização ou temporalização). Significa, em última análise, que a essência do tempo é uma co-essência que atua, que se ativa, no presente de uma leitura, de modo tal que uma temporalização não pode ser definida, tão somente, como um conjunto aleatório de tempos quaisquer, em que o tempo do corte – da crise e da crítica – ficaria sempre aberto e indefinido. A temporalização do anacronismo significa, pelo contrário, uma participação temporal na temporalidade, ou, em outras palavras, uma hiper-temporalização, infinita e potencializada, do evento, através do recurso anagramático da leitura. Se o que define o anacronismo é, portanto, a con-temporização, então, não é o tempo per se o que define a história cultural. Aquilo que define a temporalidade é, pelo contrário, o com, é a sua sintaxe ou composição, seu uso, sua política, e não uma hipotética matéria livre ou indeterminada, comunitária ou compartilhada. Essa é a que, no presente, virou etnográfica. (Antelo, 2006, p. 57)
Em outras palavras, Raul Antelo nos propõe uma abertura: a ética do anacronismo, que lê a singularidade de um acontecimento ligado ao plano simbólico por meio de um encontro inesperado, quando a temporalização do anacronismo revela uma implicação do sujeito, uma participação temporal na temporalidade, ou seja, uma con-temporização. Assim, o dossiê “Anacronismos” receberá contribuições que abordem leituras críticas e práticas anacrônicas presentes na crítica e teoria literária, na literatura, nas artes plásticas, na filosofia, nos estudos de tradução, antropologia e história, para que possamos aprofundar o procedimento como disposição crítica diante de nossos tempos, no corpo a corpo com a linguagem.
Referências: ANTELO, Raul. “O arquivo e o presente”, in: Gragoatá, n. 22, 2007, disponível em: O arquivo e o presente | Gragoatá Didi-Huberman, Georges. Diante do tempo: história da arte e anacronismo das imagens. Tradução Vera Casa Nova, Márcia Arbex. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015. Tomba, Massimilano. Revolution and Restoration: The Politics of Anachronism. New York: Fordham University Press, 2025.
Data para submissão: até 10/09/2026 Previsão de publicação: até 31/12/2026 |




