A subversão de sentidos na tradução do verbo ἑλκύω no Novo Testamento e seus impactos teológicos

Luiz Carlos Migliozzi Ferreira de Mello

Resumo


Este artigo analisa o verbo grego ἑλκύω, presente no Novo Testamento, explorando sua evolução semântica e suas implicações teológicas. A investigação é conduzida à luz da Semiótica Discursiva, que fornece os instrumentos teóricos para compreender como os sentidos do verbo se constituem na enunciação e se articulam com o contexto histórico e teológico de sua produção discursiva. A pesquisa utiliza três dicionários especializados, LSJ, BDAG e TDNT, para oferecer uma abordagem semântica, filosófica, histórica e exegética. Desde Homero, o verbo carrega o núcleo semântico de um movimento imposto por força externa, seja em sentido literal (arrastar corpos, puxar redes) ou figurado (atração irresistível por desejos). Essa característica é confirmada por paralelos clássicos, como Platão e Eliano, e pelo verbo latino trahere, reforçando a ideia de compulsão inevitável. A análise mostra que, no inglês, “to draw”, um dos verbos utilizados para traduzir ἑλκύω, evoluiu de “puxar/arrastar” para incluir “atrair”, suavizando o sentido original. No português, as traduções bíblicas investigadas variam entre “puxar”, “arrastar”, “trazer” e “atrair”. Em usos ordinários (João 18:10; 21:6; Atos 16:19, dentre outros), predominam “puxar” e “arrastar”, preservando a força externa. Já nos usos soterológicos (João 6:44; 12:32), observa-se divergência: em João 6:44, 66,7% das traduções bíblicas investigadas optam por “trazer”, enquanto, em João 12:32, todas optam por “atrair”. Essa escolha lexical pode influenciar a interpretação teológica, pois o verbo “atrair”, se for desconsiderado o contexto sócio-histórico de uso do grego antigo, período clássico e koiné, pode sugerir persuasão resistível, enquanto “trazer” indica ação eficaz e soberana do agente. Os dicionários especializados cotejados convergem para um sentido único e estável: ἑλκύω implica movimento irresistível, quer em sentido literal ou figurado, fundamentando a doutrina da graça eficaz. A suavização nas traduções reflete preocupações semânticas, estilísticas e teológicas, podendo sustentar interpretações soterológicas sinergistas. Conclui-se que compreender o núcleo semântico do verbo, em seu contexto original de produção, é essencial para uma exegese fiel e para evitar distorções interpretativas e de traduções.


Palavras-chave


ἑλκύω; Efeitos de Sentido; Tradução Bíblica; Novo Testamento; Graça Irresistível

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DOI: 10.3895/rl.v27n51.21292

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