Entoações urbanas e a escuta do caos: semiótica, ruídos e hibridismo em 'Trovoa' e 'Tudo tinha ruído' de Maurício Pereira
Resumo
Este artigo reflete sobre os modos de produção de sentido que se manifestam nas práticas significantes da canção brasileira. O corpus analítico é composto por duas obras do compositor paulistano Maurício Pereira, “Trovoa” e “Tudo Tinha Ruído”, que figurativizam a experiência urbana a partir de uma escuta aguda dos ruídos e microacontecimentos da metrópole (passos de baratas, ratos rangendo os dentes, barulho de TVs, etc.). O objetivo central é analisar como a materialidade sonora do caos urbano é transformada em sentido e paixão pela materialidade enunciativa da canção. A metodologia se ancora na semiótica da canção de Luiz Tatit, focando na análise da entoação, dos mecanismos de passionalização/figurativização, e no conceito de dicção, que representa a singularidade estilística do sujeito enunciador. Esta perspectiva é complementada pelo diálogo com Murray Schafer (a escuta da paisagem sonora e a ressignificação do ruído), Yi-Fu Tuan (a relação espaço-lugar/vivência) e Néstor García Canclini (o hibridismo cultural e linguístico nos centros urbanos). A análise demonstra que Maurício Pereira estabelece uma nova configuração enunciativa marcada por uma dicção que une o dialeto local à figuração do mínimo. Essa dicção é a estratégia que permite à canção reorientar o funcionamento dos signos, transformando o ruído – a materialidade indesejada da cidade – em figura poética e em uma paixão de vigilância. O estudo conclui que a canção, como texto sincrético, é um lócus fundamental para compreender a semiose contemporânea e as relações entre linguagem, materialidade e produção de sentido na arte urbana.
Palavras-chave
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PDFDOI: 10.3895/rl.v27n51.21268
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