Tecnologia e exclusão na mobilidade: Curitiba além do modelo

Samia Hohlenwerger, Rodrigo Firmino

Resumo


Este artigo analisa criticamente o planejamento da mobilidade urbana, a partir do caso de Curitiba (PR). Reconhecida como modelo de inovação em transporte coletivo, a cidade apresenta um sistema de transporte estruturado pela lógica da oferta, associado ao adensamento urbano ao longo de eixos viários. Argumenta-se que, embora tecnicamente eficiente, essa estrutura opera como tecnologia social seletiva, reproduzindo desigualdades e reforçando a segregação socioespacial. O problema central investigado diz respeito à forma como a técnica — naturalizada nos discursos de planejamento — atua como instrumento de homogeneização social e exclusão territorial. O objetivo do estudo é examinar as relações entre infraestrutura de transporte coletivo, valorização fundiária e acesso desigual à cidade, discutindo como a técnica, quando desvinculada de critérios redistributivos, contribui para a consolidação de padrões injustos de mobilidade. A abordagem metodológica é qualitativa, de caráter analítico e crítico. A estratégia adotada foi o estudo de caso único, com foco na cidade de Curitiba. Foram utilizadas três fontes principais: documentos institucionais e normativos (Plano Diretor, PLANMOB), dados secundários do IBGE e RAIS espacializados por bairro, e informações da URBS sobre a infraestrutura de transporte. A análise territorial e documental permitiu identificar padrões seletivos de acessibilidade, com concentração de investimentos em áreas centrais e penalização das periferias. Os resultados revelam que a racionalidade técnica aplicada ao planejamento urbano, quando orientada exclusivamente pela eficiência, desconsidera complexidades sociais e contribui para aprofundamento de disparidades. A principal contribuição do artigo é demonstrar como a infraestrutura de mobilidade funciona como dispositivo político de diferenciação territorial. Conclui-se que enfrentar as desigualdades urbanas implica reposicionar a técnica como ferramenta política de tomada de decisão subordinada aos objetivos de justiça social e inclusão espacial.


Palavras-chave


Tecnologia urbana; Mobilidade; Planejamento urbano; Segregação socioespacial.

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DOI: 10.3895/rts.v22n70.20646

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