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ACTIO, Curitiba, v. 3, n. 2, p. 39-57, mai./ago. 2018.
http://periodicos.utfpr.edu.br/actio
Prática como componente curricular em um
curso de licenciatura em matemática: uma
análise à luz da teoria da atividade
RESUMO
Rafael Borini Martins Costa
Borini
borinirafa@gmail.com
orcid.org/0000-0001-8327-9147
Universidade Federal do Paraná (UFPR),
Curitiba, Paraná, Brasil
Flávia Dias de Souza
flaviad@utfpr.edu.br
orcid.org/0000-0001-8327-9147
Universidade Tecnológica Federal do
Paraná (UTFPR), Curitiba, Paraná, Brasil
O artigo decorre de uma pesquisa de mestrado e teve como objetivo investigar
possibilidades de organização da prática como componente curricular (APCC) que possam
favorecer a articulação entre teoria e prática na formação inicial. O estudo foi realizado em
um curso de Licenciatura em Matemática e utilizou como base os pressupostos teóricos da
teoria da atividade, dentre os quais destacam-se os conceitos de atividade teórica, atividade
prática e práxis. Para o desenvolvimento da pesquisa, adotou-se a pesquisa documental,
utilizando-se dos diários de classes e dos planos de ensino detalhados das disciplinas
lecionadas no primeiro semestre de 2015 e que apresentavam parte da sua carga horária
destinada à prática como componente curricular do curso em estudo. O trabalho
fundamentou-se teoricamente em Leontiev (1983, 1988) para a discussão de elementos da
teoria da atividade e em Sánchez Vázquez (1980, 2011) para o aprofundamento dos
conceitos de atividade teórica, atividade prática e práxis. O processo de análise deu-se sob
dois aspectos: i) a presença das APCCs nos três eixos de formação previstos no curso e; ii) a
natureza das atividades de APCCs presentes no curso. Nesse primeiro aspecto a análise
centrou-se em compreender as recorrências de atividades entendidas como APCCS nos
eixos de formação específica de conteúdo matemático, formação pedagógica geral e
formação em educação matemática. No segundo aspecto de análise constituíram-se cinco
grupos de atividades, dentre os quais o grupo “Atividades de criação, estratégias didáticas,
elaboração, planejamento de atividades ou materiais para a sala de aula” revelou mais
indícios de possíveis articulações teoria e prática. Buscou-se, com a pesquisa, discutir as
atividades desenvolvidas como APCCs, trazer contribuições aos professores formadores na
organização de suas atividades de ensino, elencando características de atividades que
revelam indícios de articulação teoria e prática.
PALAVRAS-CHAVE: Prática como componente curricular. Atividade teórica. Atividade
prática. Práxis. Licenciatura em matemática.
ACTIO, Curitiba, v. 3, n. 2, p. 39-57, mai./ago. 2018.
INTRODUÇÃO
Os A Resolução do Conselho Nacional de Educação/Conselho Pleno (CNE/CP)
01 de 18 de fevereiro de 2002 estabelece que a prática não pode ficar em um
espaço isolado ou reduzida ao estágio. Pelo contrário, ela deve estar em todo o
curso, desde o primeiro semestre e em todas as disciplinas e áreas.
Posteriormente, no ano de 2015, foram aprovadas as novas “Diretrizes para
os cursos de Licenciatura no Brasil”, nas quais consta no artigo 13, parágrafo 3, a
seguinte afirmação: “Deverá ser garantida, ao longo do processo, efetiva e
concomitante relação entre teoria e prática, ambas fornecendo elementos básicos
para o desenvolvimento dos conhecimentos e habilidades necessários à docência.”
(BRASIL, 2015, p. 11).
As referidas diretrizes intencionam relacionar a teoria e a prática na formação
de professores no país de forma articulada, de modo que nenhuma se sobreponha
a outra, superando duas noções bastante presentes no discurso educacional: uma
de que a teoria é mais importante do que a prática, e outra de um acentuado
“praticismo”, no qual a prática é mais importante na profissão docente.
Diante desse cenário, o presente trabalho decorre de pesquisa de mestrado
realizada no Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências e em
Matemática (PPGECM), da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e buscou
investigar a seguinte problemática: “Que possibilidades de organização da prática
como componente curricular em um curso de Licenciatura em Matemática podem
favorecer a articulação entre teoria e prática na formação inicial de professores de
matemática?”. Teve como objetivo investigar possibilidades de organização da
prática como componente curricular (APCC) em um curso de Licenciatura em
Matemática que possam favorecer a articulação entre teoria e prática na formação
inicial, considerando-se pressupostos teóricos da teoria da atividade, dentre os
quais destacam-se os conceitos de atividade teórica, atividade prática e práxis.
Como referencial teórico, o trabalho partiu de estudos acerca da legislação
vigente para os cursos de licenciatura no Brasil, de pressupostos teóricos da teoria
da atividade propostos por Leontiev (1983, 1988) e do conceito de práxis em
Sánchez Vázquez (1980, 2011).
SOBRE A PRÁTICA COMO COMPONENTE CURRICULAR
A prática como componente curricular (APCC) foi denominada pela primeira
vez no Parecer CNE/CP de 28/2001, conforme segue:
A prática como componente curricular é, pois, uma prática que produz algo
no âmbito do ensino. Sendo a prática um trabalho consciente cujas diretrizes
se nutrem do Parecer 9/2001 ela te que ser uma atividade tão flexível
quanto outros pontos de apoio do processo formativo, a fim de dar conta dos
múltiplos modos de ser da atividade acadêmico-científica. Assim, ela deve ser
planejada quando da elaboração do projeto pedagógico e seu acontecer deve
se dar desde o início da duração do processo formativo e se estender ao longo
de todo o seu processo. Em articulação intrínseca com o estágio
supervisionado e com as atividades de trabalho acadêmico, ela concorre
conjuntamente para a formação da identidade do professor como educador.
(BRASIL, 2001c, p. 9).
ACTIO, Curitiba, v. 3, n. 2, p. 39-57, mai./ago. 2018.
Com o surgimento da prática como componente curricular na legislação, o ano
de 2002 também marca a aprovação das Resoluções CNE/CP nº1, de 18 de
fevereiro de 2002, intitulada “Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de
Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de
graduação plena”, sendo assim como o próprio título diz, as diretrizes para todos
os cursos de licenciatura no Brasil.
Ainda da análise da Resolução CNE/CP 1/2002, acerca da dimensão prática,
advém:
Art. 13 - Em tempo e espaço curricular específico, a coordenação da dimensão
prática transcenderá o estágio e terá como finalidade promover a articulação
das diferentes práticas, numa perspectiva interdisciplinar.
§ A prática será desenvolvida com ênfase nos procedimentos de
observação e reflexão, visando à atuação em situações contextualizadas, com
o registro dessas observações realizadas e a resolução de situações problema.
§ A presença da prática profissional na formação do professor, que não
prescinde da observação e ação direta, poderá ser enriquecida com
tecnologias da informação, incluídos o computador e o vídeo, narrativas orais
e escritas de professores, produções de alunos, situações simuladoras e
estudo de casos. (BRASIL, 2002a, p. 6).
Desse documento tem-se a definição de 400 horas para a prática como
componente curricular, durante toda a licenciatura, e desde seu início; enquanto
ao estágio supervisionado ficam destinadas também 400 horas, mas com seu início
a partir da segunda metade do curso, sendo que a duração mínima de um curso de
licenciatura deverá ser de três anos letivos (seis semestres letivos).
As resoluções CNE/CP 01 e 02/2002 permaneceram como diretrizes dos cursos
de licenciatura por treze anos, até que no ano de 2015 foram aprovadas novas
diretrizes para os cursos de licenciatura no Brasil. Com sua aprovação no dia 1º de
julho de 2015, é regulamentada a Resolução CNE/CP 2, que “Define as Diretrizes
Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de
licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda
licenciatura) e para a formação continuada.” (BRASIL, 2015, p. 1).
Com o intuito de entender os principais elementos previstos na nova
legislação, apresentamos as mudanças centrais e os pontos de encontro entre as
Resoluções CNE/CP 1 e 2 de 18 e 19 de fevereiro de 2002, respectivamente, e as
novas diretrizes para os cursos de licenciatura no Brasil. O quadro a seguir
apresenta algumas das alterações que ocorreram nas novas diretrizes em
comparação com a Resolução 01/2002.