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ACTIO, Curitiba, v. 3, n. 1, p. 268-285, jan./abr. 2018.
http://periodicos.utfpr.edu.br/actio
A tradição de linguagem em Gadamer e o
professor de química como tradutor-
intérprete
RESUMO
Robson Simplicio de Sousa
robsonsimplicio@hotmail.com
orcid.org/0000-0002-4637-5014
Universidade Federal do Triângulo Mineiro
(UFTM), Iturama, MG, Brasil
Maria do Carmo Galiazzi
mcgaliazzi@gmail.com
orcid.org/0000-0003-0513-0018
Universidade Federal do Rio Grande
(FURG), Rio Grande, RS, Brasil
Neste estudo, articulamos o conceito de tradição de linguagem de Hans-Georg Gadamer e
seus desdobramentos educacionais com a ideia do professor como tradutor-intérprete no
ensino de Química. Partimos, estimulados pelo químico Pierre Laszlo, de uma perspectiva
ontológica de linguagem, especialmente, a de Hans-Georg Gadamer, filósofo alemão que
estabeleceu a Hermenêutica Filosófica com sua obra Verdade e Método de 1960. Iniciamos
apresentando elementos que nos ajudam a elaborar compreensões neste texto, ao conceito
de tradição de linguagem trazido por Gadamer e em como este conceito repercute no
âmbito da Filosofia da Educação. A partir de uma ilustração acerca dos intérpretes da
tradição de linguagem feita por Gadamer, foi possível percebermos o professor de Química
também como um tradutor-intérprete da tradição de linguagem da ciência que se propõe a
ensinar. Assim, traçamos provocações à formação e à atuação do professor de Química e
com este olhar buscamos superar o que chamamos de limitação dialógica, limitação
histórica e limitação escrita. Consideramos que essas provocações formativas sobre a
tradição podem contribuir para a Educação Química, com mais história, mais criticidade,
mais subjetividade e experiência dos sujeitos que nela atuam.
PALAVRAS-CHAVE: Tradição de Linguagem. Gadamer. Hermenêutica. Tradutor-intérprete.
Educação Química.
ACTIO, Curitiba, v. 3, n. 1, p. 268-285, jan./abr. 2018.
INTRODUÇÃO
Neste artigo apresentamos compreensões teóricas acerca da Hermenêutica
Filosófica atribuída ao filósofo Hans-Georg Gadamer (1900-2002) com a intenção
de aproximarmos esta perspectiva filosófica da formação e da prática de
professores de Química. Em trabalho preliminar percebemos a potencialidade da
temática ainda pouco investigada em revistas internacionais da área de Filosofia
da Química (SOUSA; GALIAZZI, 2017). Por isso, apresentamos esta temática como
uma perspectiva a ser ampliada na formação de professores de Química.
É possível situarmos este estudo teórico dentro da Filosofia da Educação em
Ciências (SCHULZ, 2014a) em que somos influenciados pela Filosofia da Linguagem
de Gadamer. O que nos motiva a elaborar essas compreensões sobre linguagem
na educação Química é a provocação que nos faz Laszlo de que na Química “seria
muito importante reivindicar aqui uma ontologia hermenêutica como a de
Gadamer: o mundo é linguisticamente constituído e não pode existir desvinculado
da linguagem” (LASZLO, 2013, p. 1686, tradução nossa). Estamos tratando de uma
perspectiva de linguagem ontológica, constitutiva, que se diferencia da
perspectiva instrumental de linguagem (TAYLOR, 2016).
A compreensão humana é, para Gadamer, sempre historicamente
determinada e é sempre dada em uma pré-compreensão. Heidegger, uma das
principais influências de Gadamer, introduz o conceito do círculo hermenêutico, no
qual a interpretação é entendida como uma articulação, desdobramento e
desenvolvimento a partir da compreensão. Heidegger passou a ver no círculo
hermenêutico a estrutura ontológica da compreensão em si, que pressupõe
sempre uma compreensão prévia da realidade, enraizada nas convicções dos seres
humanos cotidianos, e sempre se move de maneira circular (LAWN; KEANE, 2011).
São estas perspectivas de Gadamer e Heidegger acerca da interpretação e da
compreensão que carregaremos ao longo deste texto.
Como apresentaremos a seguir, a hermenêutica filosófica tem nos mostrado
elementos provocadores para pensarmos a formação de professores de Química,
a atuação dos formadores desses professores e a repercussão dessa formação na
educação básica. Entre estes elementos, abordaremos especialmente dois neste
texto: o conceito de tradição de linguagem e a ideia do tradutor-intérprete. Ambos
reivindicam a conscientização histórica como modo de compreender e ser no
mundo imerso na linguagem, o que nos leva a estabelecer articulações com a
educação.
Iniciamos este estudo situando aspectos gerais da Hermenêutica Filosófica de
Hans-Georg Gadamer a partir de sua obra mais famosa, Verdade e Método,
dedicando-nos especialmente ao conceito de tradição e de como este se vincula à
ideia de linguagem. Na segunda parte, abordamos alguns desdobramentos deste
conceito de tradição na Filosofia da Educação reivindicados por Leiviskä (2015)
como necessidade educativa. Na terceira parte, elaboramos argumentos em
relação ao professor como tradutor-intérprete da tradição de linguagem. Na
quarta parte, ampliamos essa compreensão de tradição de linguagem e de
professor intérprete na Educação Química. Na quinta e última parte,
apresentamos as possíveis contribuições mais relevantes deste ensaio.
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UMA COMPREENSÃO DA HERMENÊUTICA DE GADAMER A PARTIR DA OBRA
VERDADE E MÉTODO I
O delineamento histórico de uma posição filosófica como a de Hans-Georg
Gadamer é sempre limitado por nossa própria interpretação. Esta é encharcada de
pressupostos e preconceitos que nos tomam linguisticamente. A partir de
Gadamer, compreende-se a ideia de que para textualizarmos sobre o mundo não
é necessário suspender nossos preconceitos. Pelo contrário, é a partir da
consciência desses preconceitos que poderemos ampliar o alcance de
compreensão. Assim, delineamos a seguir nossa interpretação de elementos gerais
da hermenêutica Gadameriana que entendemos que contribuirão para
dialogarmos acerca do conceito de tradição e da ideia de tradutor-intérprete nos
processos educativos, proposta deste texto.
A obra de Gadamer, Verdade e Método I: traços fundamentais de uma
hermenêutica filosófica (2015) apresenta como problema da hermenêutica o
fenômeno da compreensão e da maneira de interpretar o que se entende. Este
problema não pode se limitar aos métodos das ciências humanas
(Geisteswissenschaften), visto que Wilhelm Dilthey (1833-1911) buscava uma
equiparação metodológica das ciências humanas às ciências naturais, influenciada
pela ideia metodológica da última. Para Gadamer (2015), o problema
hermenêutico não se restringe à metodologização das ciências humanas, que
entender e interpretar pertencem a toda experiência do homem no mundo. O
filósofo propõe uma hermenêutica não como uma doutrina de métodos das
ciências humanas, mas para entender o que são as ciências humanas e o que as
ligam à experiência de mundo.
De forma a ampliar esta compreensão, Gadamer anuncia suas principais
influências que passam pela descrição fenomenológica de Edmund Husserl (1859-
1938), pela abrangência do horizonte histórico de Dilthey e pela articulação entre
os dois autores em Martin Heidegger (1889-1976) (GADAMER, 2015). A partir
destes filósofos, o hermeneuta busca um conceito de conhecimento e de verdade
que correspondam à experiência de interpretação e de compreensão, ao
considerar o universo hermenêutico como aquele formado pelos modos como
experimentamos uns aos outros, experimentamos as tradições históricas e as
ocorrências naturais de existência e de mundo. Por isso, Gadamer reivindica que a
verdade nas ciências humanas não pode querer desconsiderar a tradição, mas
exigir que sua forma de trabalho adquira uma transparência histórica, além de um
relacionamento (diferente da ciência moderna) com os conceitos que ela utiliza,
pensando-os não como princípios, mas como o aperfeiçoamento de um
acontecimento que já vem de longe (GADAMER, 2015).
Gadamer aposta na tradição histórica como necessária ao fenômeno do
compreender. Para ele, a experiência da tradição histórica vai além do que nela se
pode investigar, pois ao compreender a tradição, compreende-se para além de
textos, adquirirem-se juízos e reconhecem-se verdades. A tradição histórica
passava por uma objetivação em pesquisas nas ciências humanas estimulada por
Dilthey, o que Gadamer considerava uma superexcitação da consciência de uma
mudança histórica, cuja consequência foi apelar para uma ordenação da natureza
a partir de sua legitimação naturalizada pelo homem. As expectativas do resultado
da experiência da mudança histórica corriam o risco de serem distorcidas por
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ocultação do permanente e que, por isso, Gadamer entendia necessário resgatar
este permanente (GADAMER, 2015). Para o autor, a conceitualidade do filosofar
nos constitui, assim como somos determinados pela linguagem em que vivemos,
em que o filosofar responsável coloca os costumes de linguagem e de pensamento
que formam o indivíduo na comunicação de seu mundo (GADAMER, 2015).
É sobre a linguagem como meio pelo qual nos comunicamos acerca de nosso
mundo que Gadamer apresenta o que vem a ser uma conversação. Ele a diferencia
em conversação autêntica e inautêntica de modo a situar como isto pode ocorrer
em nosso cotidiano. Em uma conversação autêntica, não “levamosuma conversa,
não há direcionamento da vontade dos interlocutores. Somos dirigidos por ela, ou
seja, uma palavra puxa a outra. Assim, desembocamo-nos e enredamo-nos na
conversação que toma seu próprio rumo, encontra seu curso como um
acontecimento entre os interlocutores que não a dirigem, mas são dirigidos por
ela. A conversação tem seu próprio espírito, que carrega na linguagem utilizada
sua própria verdade em que “desvela” e deixa surgir o que é a partir de então
(GADAMER, 2015).
Gadamer fala de diálogo, pois é especialmente a partir da linguagem do
diálogo que ele constrói os fundamentos de sua hermenêutica filosófica. Os
enredamentos nos diálogos têm na linguagem o meio para realização de acordos
dos interlocutores e o entendimento sobre aquilo em questão. Gadamer ilustra
isto a partir de pessoas que falam línguas diferentes em uma conversa. Para isto,
a necessidade de um tradutor. A figura do tradutor tem sua importância na
medida em que ele é responsável por transpor um sentido a ser compreendido
para o contexto do outro interlocutor. Portanto, para ele, toda tradução é
interpretação em que a linguagem é o medium
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de acordo que é produzido
artificialmente através de uma mediação expressa e que, por mais que o tradutor
tente exprimir e ser fiel à vida e aos sentimentos do autor, a tradução sempre
constituirá uma nova luz ao texto (GADAMER, 2015). O tradutor precisa preservar
o sentido, mas levar em conta que este precisa ser compreendido em outro
universo de linguagem. Este sentido, portanto, precisa ser interpretado pelo
tradutor para ser considerado válido. Ou seja, o caráter de linguagem está nos
acordos estabelecidos nos diálogos que é o que Gadamer chama de fusão de
horizontes, em que
Horizonte é o âmbito de visão que abarca e encerra tudo o que pode ser visto
a partir de determinado ponto. Aplicando este conceito à consciência
pensante, falamos então da estreiteza do horizonte, da possibilidade de
ampliar o horizonte, da abertura de novos horizontes etc. (GADAMER, 2015,
p. 399)
E acrescenta que
O horizonte é, antes, algo no qual trilhamos nosso caminho e que conosco faz
o caminho. Os horizontes se deslocam ao passo de quem se move. Também
o horizonte do passado, do qual vive toda vida humana e que se apresenta
sob a forma de tradição, que está sempre em movimento (GADAMER, 2015,
p. 402).
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Dentro do diálogo autêntico, o compreender é sempre o processo de fusão
desses horizontes, pois, para Gadamer, compreender é sempre o processo de
fusão de horizontes presumivelmente dados por si mesmos (GADAMER, 2015, p.
404), no qual os interlocutores textualizam
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linguisticamente em/a partir de suas
tradições históricas, cuja singularidade dos horizontes individuais não se destaca
explicitamente. A fusão de horizontes se constitui numa situação interpretativa
única, na qual os enredamentos dialógicos em busca de compreensão não
pertencem a um ou ao outro interlocutor, mas tornam-se horizonte comum em
que as tradições de linguagem se encontram. É por isso que Gadamer diz que, no
diálogo com fusão de horizontes, a expressão de uma “coisa” não é somente minha
ou de meu autor, mas uma coisa comum a ambos (GADAMER, 2015). Em outras
palavras, esta fusão de horizontes se realiza na linguagem, para além de seu
sentido instrumental, em que os interlocutores que carregam suas experiências se
abrem ao diálogo buscando sentidos compartilhados.
Delineamos, nesta primeira parte, alguns elementos da obra Verdade e
Método I de Gadamer que se dedicou ao fenômeno da compreensão não apenas
atribuindo-o às ciências humanas, mas ao nosso modo de ser no mundo. Neste
compreender como ser no mundo, Gadamer entendia que não é possível
desconsiderarmos a tradição histórica que se concretiza na linguagem, à medida
que nos enredamos em diálogos autênticos entre passado e presente ou ainda
entre interlocutores do presente - que são sempre históricos - em um diálogo
cotidiano. Desse modo, o diálogo como busca de (auto)compreensão que acontece
na linguagem se constitui como abertura à aproximação de horizontes comuns,
que passam a fazer parte de ambos interlocutores enredados no processo
dialógico. Até este ponto do texto, foram tratados alguns elementos da obra de
Gadamer como compreensão, linguagem, diálogo e fusão de horizontes que nos
ajudam a dialogar, a seguir, acerca do conceito de tradição de linguagem e seus
desdobramentos nos processos educacionais.
A TRADIÇÃO DE LINGUAGEM EM GADAMER
Os acordos que emergem do diálogo no plano hermenêutico buscam a
compreensão de textos, em que estão postos os traços próprios da linguagem que
vêm da existência de uma tradição que é sempre histórica. Para Gadamer, “a
vigência da tradição é o lugar onde essa fusão [de horizontes] se
constantemente, pois nela o velho e o novo sempre crescem juntos para uma
validez vital, sem que um e outro cheguem a se destacar explícita e mutualmente”
(GADAMER, 2015, p. 404-405). Gadamer ressalta a especial primazia da tradição
de linguagem frente a outras tradições, pois, para ele, a tradição de linguagem:
(...) é tradição no sentido autêntico da palavra, ou seja, aqui não nos
defrontamos simplesmente com um resíduo que se deve investigar e
interpretar enquanto vestígio do passado. O que chegou a nós pelo caminho
da tradição de linguagem não é o que restou, mas é transmitido, isto é, nos é
dito seja na forma de tradição oral imediata, onde vivem o mito, a lenda, os
usos e costumes, seja na forma de tradição escrita, cujos signos de certo
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modo destinam-se diretamente a todo e qualquer leitor que esteja em
condições de os ler. (GADAMER, 2015, p. 504)
E complementa que a essência da tradição de linguagem está na escrita e que
esta possui significado hermenêutico (GADAMER, 2015).
O ensinamento de Aristóteles de que “o homem é o ser vivo dotado de logos
foi preservado no Ocidente com o significado de que o homem é o animal racional,
ou seja, dotado de racionalidade, vinculando logos à razão, ao pensamento
(ROHDEN, 2002). Rohden argumenta, ao trazer elementos do próprio Aristóteles,
que logos significa também linguagem, lição que Gadamer aprendeu com
Heidegger. Gadamer ampliou sua concepção de linguagem desde Verdade e
Método I, em que vinculava linguagem ao “ser o texto”, compreendendo a
linguagem como aquela que se realiza no diálogo, seja no gestual, seja nos
costumes, seja no silêncio, seja na busca de expressão acerca do mundo (ROHDEN,
2002).
Para este texto, tentamos delinear aspectos da tradição de linguagem na
Educação Química no plano dialógico-textual, conscientes da possibilidade de
emergência de outras tradições de linguagem ao longo desta tentativa. Desse
modo, valorizamos a tradição de linguagem escrita por concordarmos com
Gadamer que:
A tradição escrita não é apenas uma parte de um mundo passado, mas
sempre se elevou acima deste, na esfera do sentido que ela enuncia. Trata-se
da idealidade da palavra que todo elemento de linguagem eleva acima da
determinação finita e efêmera, própria aos restos de existências passadas. O
portador da tradição não é este manuscrito como uma parte do passado, mas
a continuidade da memória. Através dela, a tradição se converte numa parte
do próprio mundo e, assim, o que ela nos comunica pode chegar
imediatamente à linguagem. Onde uma tradição escrita chega a nós, não
conhecemos algo individual, mas se faz presente em nossa pessoa uma
humanidade passada em sua relação universal. (GADAMER, 2015, p. 505)
As interpretações de uma tradição escrita, já constituem uma elevação acima
dela, como modo de aprender sobre ela, sobre nós mesmos e, assim, sobre o
próprio mundo, numa reinterpretação que é mudança dessa tradição, nossa e
também do mundo. Compreendemos que é por isso que Rohden (2002, p. 231) diz
que ler compreensivamente um texto não é uma atividade arqueológica, nem
teleológica asséptica, mas significa tomar parte dele”.
Um dos críticos do conceito de tradição de Gadamer é Jürgen Habermas, que
entende que ao buscar compreender, na hermenêutica filosófica, a partir de
preconceitos herdados de uma tradição não é possível superá-los por uma reflexão
condicionada por esta mesma tradição. Neste modo de reflexão, apenas se
conserva e se dá visibilidade a uma precompreensão histórica consciente. Já
Günter Figal entendia que na hermenêutica de Gadamer apenas se confirma a
continuidade da tradição que nos molda e que uma busca de compreensão é
transitória, pois a tradição continua a ser efetiva (LEIVISKÄ, 2015).
Gadamer não traça uma definição do conceito de tradição, mas, a partir dele,
Leiviskä (2015) distingue dois significados diferentes. O primeiro é tradição como
estrutura ontológica que se refere a todo o processo de tradição, um contínuo das
influências históricas. Vincula-se à noção Gadameriana de história efeitual, em que
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um contínuo interpretativo de um assunto está precondicionado por suas
tradições anteriores e que elas mesmas participam na evolução da tradição atual.
A compreensão é afetada tanto pela tradição como tem efeito na tradição, pois
cada momento histórico compreende um assunto a partir do ponto de vista de seu
próprio lugar na história e, assim, transforma o modo como o assunto é
compreendido. O segundo é tradição como um concreto, em que horizontes únicos
podem ser encontrados em ações particulares de compreensão através de
diferentes articulações do passado. A tradição pode ser vista como um “objeto” de
compreensão, embora esteja amarrado à situação particular do intérprete, pois é
ele que aborda o objeto a partir de seu lugar único na história. Apresentando uma
interpretação do conceito de tradição diferente dos críticos, Leiviskä entende que:
Gadamer não a tradição como uma fonte de erro ou dogma que precisa
ser refletidamente superado, mas, ao invés disso, como um modo de ser no
qual nós nos encontramos e uma fonte infinita de diferentes pontos de
vista e perspectivas contra as quais nossos preconceitos presentes podem ser
postos em jogo. (...) A tradição não é uma força dogmática, ao invés disso, ela
pode ser uma força valiosa de autoconsciência e conhecimento. (LEIVISKÄ,
2015, p. 592)
Iniciamos ressaltando o voltar-se de Gadamer ao conceito de tradição de
linguagem, como uma prioridade em relação a outras tradições, pois, o que chegou
até nós textualizado linguisticamente, possui em si elementos a partir dos quais
interpretamos. Possui um caráter hermenêutico, cuja ideia original não é passível
de ser reconstruída como foi elaborada inicialmente, mas está potencialmente
aberta às múltiplas interpretações que são influenciadas pelas tradições históricas
daquele que interpreta e que se torna parte do mundo e de tradições de linguagem
como um concreto e como uma estrutura ontológica.
O CONCEITO DE TRADIÇÃO GADAMERIANO NA FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO
O conceito de tradição em Gadamer esteve isolado das discussões
educacionais em função do conservadorismo atribuído à noção de tradição
(LEIVISKÄ, 2015). Este conceito está associado a um conservadorismo indesejável
que objetiva preservar normas e valores do passado e obter um fundamento
normativo para a educação. Contudo, em termos educacionais, não é possível fugir
da autoridade da tradição, pois ela se aplica tanto para professores quanto para
estudantes que estão imersos em preconcepções tradicionais sem que
necessariamente estejam conscientes disso (LEIVISKÄ, 2015).
Na inconsciência da tradição de linguagem dentro do contexto educacional,
estamos condicionados por ela, uma vez que transmitimos uma tradição de
linguagem específica construída historicamente, uma tradição de nos
apresentarmos de determinado modo como educadores e como estudantes, uma
construção curricular de conteúdos “ensináveis” tradicionais e inclusive uma
tradição de institucionalização da escola como ambiente em que se educa. Esses
fragmentos concretos de tradição compõem ontologicamente a tradição na
educação. A tradição é a base de operação inconsciente que inescapavelmente
precondiciona todos os atos e configurações educacionais (LEIVISKÄ, 2015, p.
594).