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ACTIO, Curitiba, v. 3, n. 1, p. 248-267, jan./abr. 2018.
http://periodicos.utfpr.edu.br/actio
O manual do mundo: as derivas da
educação química ciências
RESUMO
Fabiana Gomes
fabiana_rs@yahoo.com.br
orcid.org/0000-0002-4344-7254
Instituto Federal de Goiás (IFG), Uruaçu,
Goiás, Brasil
Moisés Alves de Oliveira
moises@uel.br
orcid.org/0000-0003-0102-9385
Universidade Estadual de Londrina (UEL),
Londrina, Paraná, Brasil
Este trabalho procurou apresentar e pôr em discussão o movimento da química no canal
conhecido como Manual do Mundo, um canal de entretenimento educativo que
interessou a mais de 8 milhões de pessoas. O canal especializou-se em produzir vídeos
demonstrativos de experimentos de ciências usando uma linguagem informal endereçada
ao público jovem. Olhamos a química que é deslocada do mundo off-line ao mundo online
como estratégia de arregimentação e convencimento para dar visibilidade e prestígio ao
discurso científico que esse canal veicula mantendo o canal em funcionamento. Esses novos
espaços de mobilidade do jovem estão produzindo uma outra forma de pensar e de
aprender. Nos apropriamos das teorizações de Bruno Latour sobre enunciados e
modalidades para analisar as derivas em relação ao discurso pedagógico apresentado no
vídeo Como fazer tinta invisível. Em seu interior vimos os elementos que o apresentador,
Iberê Thenório, utiliza como estratégia de arregimentação de aliados, que colocam em
circulação enunciados científicos capazes de deslocar a química a lugares outros que não os
institucionalmente naturalizados. A atuação do Iberê, o híbrido jornalista-cientista-
professor, é um dos pontos que causam o sucesso do canal, uma vez que, ao se apropriar
de vários elementos coloca em movimento sua ciência: a química experimental do
laboratório.
PALAVRAS-CHAVE: Manual do Mundo. Ciência de Laboratório. Bruno Latour. Ensino de
Química. Ensino de Ciências.
ACTIO, Curitiba, v. 3, n. 1, p. 248-267, jan./abr. 2018.
INTRODUÇÃO
Sentados confortavelmente em frente aos computadores, no Laboratório do
Grupo dos Estudos Culturais das Ciências e das Educações (GECCE), no
Departamento de Química da Universidade Estadual de Londrina, nós
contemplávamos um vídeo do grupo “Manual do Mundo” produzido pelo
Jornalista Iberê Thenório e pela terapeuta ocupacional Mariana Fulfaro. O canal
Manual do Mundo apresenta em sua configuração vídeos do tipo “faça você
mesmo” a partir das temáticas: experimentos de ciências (biologia, física e
química), receitas, brinquedos, mágicas, origami, sobrevivência, pegadinhas,
desafios, dúvida cruel e boravê (Manual do Mundo, 2017).
O vídeo que assistíamos e que será objeto de análise neste texto, intitulava-
se: Como fazer tinta invisível, tratava de um tema de química, ao mesmo tempo,
articulado à guerra fria, à pedagogia e ao lúdico. Imediatamente fomos invadidos
por uma estranha sensação de que a razão de ser da Química científica com
compromissos epistemológicos e ontológicos, pautados no conhecimento e na
razão científica, fora - mais uma vez - tomada de assalto para outro espetáculo das
mídias contemporâneas, centradas, como diz Kellner (1995), na era do
entretenimento e articulado à cultura da imagem. Antes, porém, que pudéssemos
prosseguir com o julgamento de como tal apropriação da Química leva ao declínio
exponencial da alfabetização científica, olhamos para a marca de 8 milhões de
inscritos (Manual do Mundo, 2017) exibida na parte inferior da página inicial.
Impossível não se surpreender por um contingente tão expressivo de interessados,
quando lembramos dos esforços que nós professores fazemos para manter umas
poucas dezenas de jovens minimamente atentos aos argumentos da esotérica e
muito séria razão científica do A + B ↔ C + D.
Pesquisas como a de Brandão e Pardo (2016), indicam que os jovens não estão
mais interessados nas áreas de ciências (BRANDÃO; PARDO, 2016), sobretudo a
química e sua licenciatura. Vê-se um movimento para migração para as áreas
tecnológicas e informatizadas, muitas vezes defendidas pelas grandes mídias como
as profissões “do futuro”.
Tais mídias, constantemente produzem e fazem circular uma série de valores,
concepções, representações relacionadas a um aprendizado cotidiano sobre
quem nós somos, o que devemos fazer e como devemos pensar. Concordamos
com Fischer (2002, p. 153) quando ela desabafa que “torna-se impossível fechar
os olhos e negar-se a ver que os espaços da mídia constituem-se como lugares de
formação, também como potentes espaços que fazem pensar, provocando um
deslocamento de ênfase em relação a intensidade da importância da escola, da
família, das instituições religiosas como representantes da ordem para os espaços
rebeldes e ingovernáveis da cultura.
A motivação para o desenvolvimento dessa pesquisa decorre dessa
necessidade. Qual? A de pensar nestes novos espaços de mobilidade do jovem e
tentar compreender o que lhes interessa no tempo em que vivem. É tentar
desvendar as estratégias de arregimentação que as mídias promovem no processo
de recrutamento desses jovens.
Isso é um tanto instigante, se pensarmos que todo esse processo acontece nas
práticas sociais. Não estamos olhando para o indivíduo isolado, mas a esse e a
tantos indivíduos que constituem o mundo social, onde seres humanos e objetos
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se articulam de diferentes formas para estabilizarem os enunciados de verdade
que a mídia potencializa. Aprender a caminhar por estes espaços é procurar
conhecer como o nosso mundo está operando.
Com o olhar na educação química e buscando compreender como ela vai
vivendo na performática sociedade do consumo de imagens, escolhemos como
objeto de estudo os materiais divulgados no canal intitulado Manual do Mundo.
Nossa missão nesse artigo é apresentar e pôr em discussão o que colhemos como
primeiras impressões acerca dos motivos desse dispositivo causar tanto interesse
nos jovens. Uma pesquisa mais metodológica e abrangente que procura
aproximar-se deste locus está sendo produzida como tese de doutorado, seguindo
neste artigo, análises primeiras sobre alguns elementos que compõem este
estudo.
O Manual do Mundo (www.manualdomundo.com.br) é um canal que existe
independente como página da web, mas também opera com maior sucesso de
público - no YouTube. Os autores auto proclamam os vídeos que tratam de
experimentos relativamente bem conhecidos sobre ciências como “projetos
inovadores”. Dado o sucesso que eles estão alcançando, ficamos instigados. Por
que experimentos científicos de divulgação vistos e revistos tornam-se
novamente potentes? Vamos nos amparar da perspectiva da área do design que
se vale da ideia simples de que um produto inovador pode ser algo que já existe e,
num processo de transformação, passou a ser novo (AZEVEDO et al, 2013). Pois
bem, produzir vídeos demonstrativos de experimentos surgiram e ainda surgem
em números significantes. Então, por que o canal Manual do Mundo consegue
arrastar um número expressivo de inscritos (8 milhões) e se manter em evidência
para o jovem, por 8 anos?
Se a pretensão das perguntas é grande, a elucidação não se esgotará neste
trabalho. O que conseguimos até esse momento foi iniciar uma análise sobre o
canal e suas estratégias de arregimentação. Quiçá vislumbramos as primeiras
considerações acerca desses jovens como potentes aliados do canal.
Por entendermos que a inovação nas apresentações não se dá pelo conteúdo
científico em si, mas pelas estratégias de arregimentação e uso, ou seja, pelas
estratégias como as quais as informações são propagadas em uma rede, ao mesmo
tempo social e técnica, procuramos refúgio principalmente nas teorizações
propostas por Bruno Latour, Michel Callon e Jonh Law.
As teorizações de rede, principalmente as noções de arregimentação nos
servem à perfeição para ajudar na compreensão das questões que nos moveram
para a análise do canal. Principalmente como o Manual do Mundo opera dentro
de um sistema imagético e discursivo valendo-se da química como elemento de
articulação. O interesse dos jovens estaria imbricado na atuação de seus atores?
Seriam essas nossas primeiras tentativas de compreender como o Manual do
Mundo estabelece seus critérios de arregimentação, quem ele está atingindo e a
intencionalidade que paira em ambos os lados.
Assim, entendemos que uma imersão netnográfica nos cenários culturais que
compõem a trama poderão nos fornecer as informações de como os atores
produzem argumentos, tomam decisões, fazem classificações. De resto,
constroem os caminhos para a “inovação”. Mais uma vez, são as teorizações
desnaturalizantes de pensadores como Michel Foucaut, (1972, 1977), Norbert Elias
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(1994), Deleuze e Guattari (1995, 1996, 1997), Latour (2001, 2011) que nos
permitirão traçar um processo de classificação sem, contudo, recairmos numa
análise hierarquizante. Ou seja, estaremos preocupados com as diferenciações nas
condições de produção e não com o julgamento de valor acerca delas.
Após essa breve apresentação, acreditados possível anunciar os recortes que
fizemos para dar conta de um texto ajustado tanto para os objetivos do evento
CPEQUI quanto das nossas reais possibilidades analíticas para o momento. O
primeiro recorte refere-se ao objeto de análise. Vamos nos limitar a um único
vídeo
1
, escolhido, dentre 123 vídeos com a temática química por apresentar os
elementos necessários que nos permitem avançar em respostas às nossas
inquietações. O segundo recorte refere-se às ferramentas teóricas que
utilizaremos. Como nosso interesse é, nesse momento, de cartografar, optamos
por tratar a questão da arregimentação pelo olhar de suas potências enunciativas.
Isso implicou perguntar como os enunciados são postos a funcionar na
apresentação do vídeo para diferenciar e fortalecer certos sistemas de significação
por derivação e por modalização dos enunciados. Mais uma vez são Latour (1997)
e Foucault (1972) quem nos fornecem ferramentas teóricas fundamentais para a
compreensão das práticas sociais enquanto políticas discursivas ou enunciados em
contínuo processo de modalização e desmodalização.
O MANUAL PARA LER O MUNDO: ENUNCIADOS E MODALIZAÇÕES
Latour (1997), ao etnografar um laborario científico renomado nos anos 70,
se deparou com o lugar de fazer ciência dissonante do lugar sagrado e legitimado
como ambiente da prática científica. Não porque aquele laboratório fizesse outro
tipo de ciência, mas porque ninguém havia ido a campo antes olhar dentro dele,
não havia interesse pelos acontecimentos da vida diária de um laboratório ou por
uma análise sociológica da atividade científica. Ali ele observou que os cientistas,
atores sociais como quaisquer outros, utilizavam as ciências que faziam como
estratégias persuasivas de convencimento que os mantinham constantemente no
interior do processo de construção científica. Tomamos os enunciados como
integrantes potentes desse conjunto de estratégias. E aqui vale um esclarecimento
do que assumimos como enunciados.
Enunciados não podem ser analisados apenas como frases, descritas por uma
análise formal ou por investigações semânticas” (OLIVEIRA, 2009, p.215), precisam
incluir o processo de articulação que as colocou em construção. Sobre isso
Foucault havia dito que
O enunciado não é, pois, uma estrutura (isto é, um conjunto de relações entre
elementos variáveis, autorizando assim um número talvez infinito de
modelos concretos); é uma função de existência que pertence,
exclusivamente, aos signos (FOUCAULT, 2008, p. 98).
De tal modo, é possível pensarmos no Manual do Mundo um local de
produção singular de enunciados que se articula à ciência química, validando-a a
partir do sentido que seus aliados atribuem a eles. Procuramos identificar os
enunciados construídos pelo apresentador do Manual do Mundo, Iberê Thenório,
usando as cinco etapas enunciativas classificadas por Latour e Woolgar em Vida de
Laboratório (1997), a fim de compreender as diferentes etapas que “o enunciado
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pode percorrer até que se transforme em fato, uma caixa-preta, ou se esboroe em
uma ficção” (OLIVEIRA, 2009, p. 223). Um fato passa a ser naturalizado como tal
na medida que não arrasta mais consigo a trajetória que o estabeleceu como tal.
Porém, o caminho não é tão simples, pois um enunciado pode ser fortalecido
ou enfraquecido por outro enunciado por meio de modalidades que nos permitem
analisar as sentenças que colocam em dúvida certos enunciados. Latour chama de
“modalidade positiva as sentenças que afastam o enunciado de suas condições de
produção, fortalecendo-o. [...] modalidade negativa as sentenças que levam um
enunciado para a direção de suas condições de produção” (LATOUR, 2011, p. 32).
Apresentaremos os tipos de enunciados, mas nos ateremos a maiores
discussões durante a análise das sentenças, quando surgir a etapa de descrição dos
momentos analíticos. Usaremos aqui a citação dos tipos de enunciados descritos
por Oliveira (2009):
“Tipo 1 o enunciado está situado na esfera da especulação e das
conjecturas, sendo influenciada por muitas variáveis modalizadoras;
Tipo 2 declarações ou afirmações que contêm modalidades que podem ser
consideradas como de descrédito (destrutivas) do enunciado, típico de
controvérsias que se dão no início de discussões sobre determinado conceito;
Tipo 3 reivindica-se nessa categoria uma certa naturalização do fato,
embora com modalidades que podem ser compreendidas como
acrescentando argumentos, assertivas (construtivas) que o criando
realidade ao enunciado original, mas também modalidades negativas como
no tipo 2;
Tipo 4- as modalidades nessa etapa vão sendo superadas por comprovações,
e a facticidade do enunciado torna-se plausível, mantendo-se ainda um
vínculo de necessidade de identificar, por exemplo, o autor do enunciado;
Tipo 5- representam assertivas que mais se aproximam dos fatos, em que
não se adicionam modalidades nem destrutivas nem construtivas e
raramente se faz menção aos autores. Deste ponto em diante o
conhecimento torna-se tácito e normalmente é incorporado às novas
situações de uso científico ou popular” (OLIVEIRA, 2009, p. 223-224).
Um estudo dos enunciados produzidos no vídeo Como fazer tinta invisível e
nos enunciados construídos no espaço dos comentários nos permitirá identificar
as modalidades que operam como estratégias de arregimentação do Manual do
Mundo.
A INTERNET COMO ESPAÇO OUTRO DE (IN)FORMAÇÃO
As novas mídias, como os canais da internet, vêm disputando espaços e
posições que antes pertenciam às instituições específicas e naturalizadas, como a
escola (COSTA, 2005; GREEN, BIGUN, 1995), para citar apenas essa. Os blogs, os
diversos canais educativos, as vídeo-aulas e outros inúmeros extratos convocam a
outros estados simbólicos de (in)formação, fortalecida pelos eventos de
aprendizagens em velocidades e autonomias que vem possibilitando a expansão
das relações simbólicas e materiais na teias sociais e culturais, bem como alarga a
interconexão global, criando condições da anulação das distâncias e das fronteiras
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entre pessoas e lugares. Como observa Du Gay (apud Hall, 1997, p. 18) “[...]
lançando-os em um contato intenso e imediato entre si, em um ‘presente’
perpétuo, onde o que ocorre em um lugar pode estar ocorrendo em qualquer
parte”.
Ao citarmos a escola, ou melhor, uma certa burocracia pedagógico-escolar,
nosso argumento não busca desautorizar os nexos produtivos de suas práticas
epistemológicas. Contudo, não vamos mais garantir aqui uma centralidade ao
poder institucionalizado da escola na produção dos saberes; das culturas; das
ciências e das tecnologias na produção do sujeito. De resto, a vida local é
inerentemente deslocada, na era da internet, para práticas que acrescentam uma
diversidade de modos de existência, de modos particulares de expressão
simbólicas, textuais e práticas, bem como as formas e os sistemas de distribuição
e exibição pelas quais esses significados são deslocados sociedade afora. O local
não tem mais (se é que já teve) como manter uma identidade objetiva fora de sua
relação com o global (LATOUR, 2012).
Compartilhamos da premissa cada vez mais forte de que a produção semiótica
veiculada na internet não pode mais ser vista como “simplesmente” de troca, de
busca de informações ou encontros. Trata-se de um sistema complexo de práticas
de agenciamentos que efetivamente estão no centro dos processos que
constituem os saberes, os significados, os desejos. Em última análise: da produção
de saberes que põem em discussão o que se concebe hierarquicamente como
conhecimento. O conhecimento outrora concebido como uma forma mais ou
menos acurada, verticalizante e central dos discursos escolares por garantir
justamente a ilusão da universalidade e da representação da realidade de seus
compromissos epistemológicos, vem, nas contemporâneas análises culturais das
vertentes pós-estruturalistas, sendo concebido como um discurso saturado de
poder e inextricavelmente constituinte da realidade (FOUCAULT, 1984). Ora! O
conhecimento pensado assim não se distingue da informação, posto atuarem
sempre como práticas de arregimentação que sistematicamente produzem os
objetos dos quais falam (FOUCAULT, 1972).
Vale sempre relembrar uma afirmação de Stuart Hall: “Nossa participação na
chamada Internet é sustentada pela promessa de que ela nos possibilite em breve
assumirmos ciberidentidades substituindo a necessidade de algo tão complicado
e fisicamente constrangedor como é a interação real” (HALL, 1997, p. 23). Deste
modo, se assumirmos a química como um sistema simbólico artificial, recosturado,
retomado, reinterpretado no mundo online, podemos simular quem e de que
forma podem-se veicular os olhos dos especuladores, outras formas de
personificar a química no ciberespaço. Mas Santaella (2004, p. 52) lembra que isso
“só é possível pela mediação do Outro (a linguagem, a cultura, o ciberespaço como
sistemas de código) que possibilita essas interações não experienciáveis em outras
situações”. O Manual do Mundo é esse Outro, um ciberespaço que constrói
sistemas de subjetivação que tem como pano de fundo a química espetacular.
O MANUAL DO MUNDO
O canal Manual do Mundo foi criado em 2008 com o propósito de demonstrar
fenômenos que a ciência produz por meio de vídeos dispostos no ambiente do
YouTube e no site (www.manualdomundo.com.br). Atualmente o canal alcança a
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marca de mais de oito milhões de inscritos (Manual do Mundo, 2017), índice
importante para se manter, como diria Latour (1997, p. 220), “com credibilidade”
no ambiente virtual.
Seu criador, jornalista que em início de carreira realizava pesquisas sobre
ciências, para serem discutidas em revistas e televisão, passou a se aventurar na
apresentação de experimentos de forma lúdica e descontraída. Ora sozinho, ora
na companhia de sua esposa, terapeuta ocupacional, o apresentador afirma que o
“jeito que ensinam é chato (SAKKIS, 2016), por isso busca ensinar em um
ambiente divertido e estimulante que, segundo ele, não se encontra na escola
contemporânea.
As páginas do site do Manual do Mundo estão organizadas em colunas, que
permitem aos visitantes encontrar vídeos subdivididos em itens como
Experimentos, Receitas, Brinquedos, Sobrevivência, Desafios, Pegadinhas,
Mágicas, Origami, Dúvida Cruel e Boravê.
Uma primeira impressão quando se acessa a página é o espetáculo visual de
cores e imagens oriundas das miniaturas que apresentam os vídeos. a
possibilidade de o internauta não saber qual vídeo assistir primeiro e acabar se
dispersando de seu objetivo primeiro: assistir ao fenômeno demonstrado. O plano
secundário da página, ou o pano de fundo da imagem, é algo que simula madeira,
que talvez foi escolhido para nos reportar ao fundo do cenário de seus vídeos que
acontecem num espaço semelhante àquele que desfrutara na infância, a oficina
do seu progenitor.
Dispostos em linha, dentro de um sistema classificatório de assuntos, estão as
colunas. A loja virtual, onde a todos é permitido comprar alguns materiais que ele
utiliza em suas performances, vem em primeiro lugar. Ela foi planejada a atender
àqueles que desejavam, e ainda desejam, fazer suas reproduções científicas em
casa. Ou, talvez, a intenção primeira tenha sido proporcionar aos professores um
acesso fácil aos materiais para que pudessem aplica-los em suas aulas, uma vez
que uma de suas intenções era melhorar o ensino.
No interior da coluna experiências uma espécie de currículo fragmentado
em disciplinas escolares: física, química e biologia, que dividem os holofotes com
uma nova coluna chamada de fáceis e baratas. Então, se o propósito for fazer um
piano de garrafas ou ainda, construir um vaso de plantas anti-dengue, nessa coluna
estará o passo-a-passo. Mas, o que há na coluna de sobrevivência? Uma tentativa
de nos ensinar a sobreviver fazendo artesanato, a conhecer tudo sobre carros e
casa e sim, a sobreviver num camping produzindo nosso próprio ralador de
emergência para ataque de zumbis.
Dúvida Cruel e Boravê possuem respostas a dúvidas e questionamentos que
muitas vezes nos deparamos, como por que o bocejo é contagiante? Ou como o
papel é fabricado? Este último como uma espécie de visita técnica a uma fábrica
de celulose e papel, metodologia muitas vezes dispendiosa e improvável a muitas
instituições escolares. Pois bem, o acesso ao menu de vídeos reduz uma
quantidade de empecilhos que nós professores temos em sala de aula, e não nos
referimos apenas ao desinteresse do alunado. Vale a pena explorar!
Os números que alavancam o canal no ambiente virtual localizam-se no canto
inferior direito da página: facebook, com mais de um milhão e trezentos fãs;
twitter, com mais de cem mil seguidores; instagram, com mais de duzentos e
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sessenta mil seguidores e mais de oito milhões de inscritos no YouTube (dados de
maio de 2017). Abaixo desses números, está o convite “confira as novidades!” da
loja do Manual. Como dito antes, um espaço de vendas de produtos de laboratório
e produtos da marca registrada.
A sala, a cozinha e o banheiro do apartamento foram cenários para Iberê
demonstrar a espetacularização da ciência. Em meados de 2012, embalados pelo
sucesso das postagens, seus vídeos evidenciaram a necessidade de ampliar o
espaço para um outro local, alugado, mas ainda improvisado de laboratório. Neste
lugar se percebia a inclusão de prateleiras no plano de fundo do cenário, uma
bancada à frente e ferramentas dispostas em um estrado de madeira.
No cenário de hoje não é mais notada a improvisação. Ele é construído para
atender ao estereótipo instituído histórica e socialmente como representativos da
química, da física e da biologia, disciplinas científicas centrais da ciência show
apresentada no manual do mundo. Neste último cenário mais prateleiras e,
instrumentos, mais semelhante a um laboratório escolar.
O MÉTODO
No nicho da pesquisa estão presentes um corpus de 123 vídeos que podem
ser complementados, em alguns, com receituários, com sugestões de manipulação
dos reagentes, com referências de outros atores e com outras ferramentas
discursivas. Escolhemos o vídeo que propunha ensinar Como fazer tinta invisível
pautados no potencial que este vídeo apresenta para problematizarmos as
escolhas de aliados que o apresentador fez como porta-voz de uma “ciência
espetacular”.
Iberê, o apresentador do vídeo, é o representante de toda uma rede discursiva
que o autoriza a falar diante daquilo que ele representa. Ele é o porta-voz da
ciência, da pedagogia, dos jornalistas, dos cientistas e de tantos outros. A ciência
que ele traduz pertence a um conjunto de estratégias de arregimentação que alicia
certos tipos de aliados; aqueles que visualizam o vídeo como uma pragmática, uma
forma interessada de ação reciprocamente dirigida como forma de atingir
objetivos específicos. Daí a informação-conhecimento ser julgada e válida quando
são mutuamente construídos, aqueles que expressam se gostaram ou não
gostaram, aqueles que deixam seus comentários, enfim, todos aqueles que
mantém os critérios pelos quais as crenças são mantidas ativas.
Latour (2011) utiliza o termo porta-voz para denominar alguém que está no
papel de representante daqueles que não podem falar, em suas palavras, “o porta-
voz é alguém que fala em lugar do que não fala” (p. 108).
A investigação dos conteúdos existentes no canal, no ambiente virtual ou
ciberespaço, nos permitiu caracterizar a pesquisa como netnografia, uma vez que
se enquadra no “estudo de práticas comunicacionais mediadas por computador”
(AMARAL; NATAL; VIANA, 2008, p. 35).
A netnografia surgiu em um cenário de indagações metodológicas em que,
pelo atropelamento das novas mídias, pesquisadores procuravam apoio “à
compreensão das questões sociais submetidas pelo véu digital” (MOURA, 2015, p.
80). A comunicação entre cultura e as comunidades emergentes, mediada por
computador em fóruns online, foi a pesquisa precursora da nova metodologia. O
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termo etnografia virtual é preferido por antropólogos e pesquisadores das ciências
sociais, em especial por Christine Hine, forte pesquisadora das comunidades
virtuais. Para Hine a internet não é apenas espaço de interações sociais, mas
também ambiente de (re)constituição cultural ou ainda, pode ser vista como
artefato cultural, um produto de significados diversos, que nos permite trata-la
como “um produto da cultura: uma tecnologia que foi produzida por pessoas
particulares com objetivos e prioridades situadas contextualmente” (POLIVANOV,
2013).
A netnografia adota algumas características da etnografia, tais como a
imersão no grupo de análise e a convivência com uma cultura local (MARTINS,
2012). Não nos interessamos unicamente pelos aspectos metodológicos que
ambas firmaram no campo da pesquisa sobre sujeitos e suas relações, mas,
sobretudo às maneiras e contextos culturais e sociais em que estas relações se
formam nos domínios online e off-line.
Procuramos realizar uma pesquisa silenciosa na rede, exercitando a
observação do comportamento dos atores sociais que integram o Manual do
Mundo, o campo no qual imergimos. Assim, os vídeos foram assistidos e os
comentários foram analisados como forma de rastrear ações provocadas pelos
enunciados do apresentador. Aqui vale informar que procuramos ser fieis aos
nomes próprios expostos nos comentários, compreendendo que os mesmos foram
autodenominados pelos aliados.
Os elementos utilizados para fortalecer a química presente no discurso
pedagógico escolhido pelo Iberê foram dispostos em dois momentos, a saber, a
análise do vídeo, destacando os enunciados proferidos como construção de fato
científico e a análise da imagem, utilizando um recorte de uma cena do vídeo. Esta
última com intenção analítica de observar os elementos inseridos no cenário que
servem de arregimentação e, na primeira, como já introduzido, identificar as
modalidades que tornam fato os enunciados químicos. Essa separação entre o
objeto e o discurso é produtiva apenas porque evidencia as várias camadas que
constituem a textura em funcionamento nos vídeos. A essa estratégia constituinte
das preocupações etnometodológicas com o estabelecimento de intensidades e
hierarquias, estamos chamando de decoupage.
A decoupage provém das teorias do cinema, que procura articular a ordem
das imagens com a ordem da narrativa (PINTO, 2013). Recentemente foram
apropriadas como possibilidade para a análise educacional, principalmente por
Elizabeth Ellsworth (2001) que levanta a possibilidade de discutir canais da internet
e as práticas pedagógicas sob a ótica dos modos de endereçamento, ou melhor,
modos de interessar o espectador.
A imagem escolhida para a análise foi seccionada em dois planos, o que
chamamos de central e plano secundário. Os elementos presentes na imagem
foram nossos critérios para diferenciar os planos. O plano central trouxe os
elementos centrais da narrativa: o apresentador e os dispositivos utilizados na
experiência, que fortalecem o discurso científico. No plano secundário
elementos que não interagem explicitamente com o discurso, mas podem
arregimentar certos tipos de aliados.