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ACTIO, Curitiba, v. 3, n. 2, p. 1-14, mai./ago. 2018. Seção Entrevistas.
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O contexto da educação brasileira no ensino
de ciências/química no ensino médio e
superior: entrevista com o professor
Eduardo Fleury Mortimer
The context of brazilian education in
science/chemistry teaching in high school
and college education: interview with
Professor PhD. Eduardo Fleury Mortimer
ACTIO, Curitiba, v. 4, n. 2, p. 1-14, mai./ago. 2018. Seção Entrevistas.
Marcelo Cesar Ribeiro
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Paraná (SEED), Curitiba, Paraná, Brasil
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Universidade Tecnológica Federal do
Paraná (UTFPR), Curitiba, Paraná, Brasil
MORTIMER, Eduardo Fleury membro do Comitê Editorial e árbitro em várias
revistas nacionais e internacionais das áreas de Educação e de Ensino de Ciências.
Fonte: TV UFMG. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=F70pOTjwLAs>:
Mortimer_Fleury_2016.jpg. Acesso em: 10 mar. 2019.
PALAVRAS-CHAVE: Mortimer Fleury. Entrevista. Ensino de Química. Ensino de Ciências.
KEYWORDS: Mortimer Fleury. Interview. Chemical education. Science teaching.
ACTIO, Curitiba, v. 4, n. 2, p. 1-14, mai./ago. 2018. Seção Entrevistas.
APRESENTAÇÃO
O professor Eduardo Fleury Mortimer atualmente é membro do Comitê
Editorial e árbitro em várias revistas nacionais e internacionais das áreas de
educação e ensino de ciências. Também atua como pesquisador I-A do CNPq, é
assessor da Capes e Fapesp e membro do Conselho Técnico Científico - Educação
Básica, da CAPES. Trabalha também na pesquisa sobre formação de professores,
pois coordena um grupo de formação continuada na UFMG - FoCo - com ampla
tradição em pesquisa, produção de materiais e desenvolvimento profissional de
professores.
Já foi coeditor da Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, no
período de 2001 a 2005, editor coordenador de Química Nova na Escola de 2000 a
2007 e editor de Educação em Revista. Foi também, coordenador do Programa de
Pós-graduação em Educação da UFMG, diretor da Divisão de Ensino da Sociedade
Brasileira de Química, membro do CA do CNPq na área de Educação e Presidente
da Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências.
Antes de ingressar na Faculdade de Educação de UFMG em 1983,
especialmente como professor na área de Ensino de Química, trabalhou cerca de
três anos como químico em indústrias e lecionou a disciplina de química no ensino
médio por cinco anos nas escolas de Belo Horizonte. Logo depois de ingressar
como professor da UFMG e fez seu mestrado em educação na própria UFMG, em
que concluiu no ano de 1988. Em 1994 defendeu a sua tese de doutorado na USP,
onde consolidou toda sua brilhante carreira até se aposentar.
O presente artigo tem como objetivo principal discutir e estimular a reflexão
sobre o contexto da educação brasileira no Ensino de Ciências e Química no ensino
médio e superior, a partir da fala do professor Eduardo Fleury Mortimer, que é um
importante e renomado pesquisador no contexto educacional, cuja notoriedade
científica é reconhecida no Brasil, Europa, Estados Unidos, dentre outros países.
A entrevista ocorreu durante o evento “Jornadas de Educação em Ciências e
Matemática”, realizado pelo Programa de Pós-Graduação em Formação Científica,
Educacional e Tecnológica (PPGFCET) no campus de Curitiba da Universidade
Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), no dia 23 de novembro de 2017. Naquele
momento, o professor Mortimer falou sobre sua trajetória pessoal e profissional,
realizando uma retrospectiva do cenário da educação no ensino de Ciências e
Química no ensino médio e superior através do contexto pedagógico, e o
entendimento e a descrição desse ensino da química no contexto público nos dias
Contemporâneos.
REFERÊNCIAS
CNPQ. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
Currículo Lattes Oficial. Última atualização do currículo em 02/03/2019.
Informações do Próprio Autor.
Programa de Pós-graduação em Educação: conhecimento e inclusão social. O
ensino de estrutura atômica e de ligação química na escola de 2º grau: drama,
tragédia ou comédia? Dissertação de Mestrado. UFMG. 1988.
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USP. Universidade de São Paulo. Evolução do atomismo em sala de aula:
mudança de perfis conceituais. USP. 1994.
MORTIMER. E.F; MACHADO. A.H. Química. Ensino Médio. Editora Scipione. SP.
Vol. 1,2,3. PNLD. 2017.
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ENTREVISTA
Valendo-se do ensejo de ter a presença de vários especialistas em temáticas
múltiplas referente ao ensino de Ciências, o PPGFCET realizou entrevistas com
alguns deles. Dentre eles, estava o professor Mortimer, que de forma educada e
gentil, concedeu uma entrevista de aproximadamente uma hora e trinta minutos
aos autores do presente artigo.
No decorrer do evento o professor Mortimer falou um pouco sobre sua
trajetória pessoal e profissional na área de química, assim como falou e encorajou
uma intensa reflexão sobre o contexto da educação brasileira no Ensino de
Ciências e Química no ensino médio e superior nos dias contemporâneos, como
também as transformações que ocorreram no ensino de química no contexto
público. A entrevista com o professor Mortimer traz reflexões importantes, que
nos remete a momentos difíceis que o professor da educação básica enfrenta
neste momento. Seja por motivos sociais, políticos ou econômicos, o professor
está literalmente fadado ao fracasso se realmente não houver uma mudança
urgente nas políticas públicas educacionais.
GOSTARIA QUE O PROFESSOR FALASSE UM POUCO DA SUA TRAJETÓRIA COMO
EDUCADOR E PESQUISADOR? E O QUE LEVOU À ESCOLHA DA ÁREA DE QUÍMICA
PARA ATUAÇÃO? SERÁ QUE PODEMOS IDENTIFICAR MOTIVADORES
SEMELHANTES EM DISTINTAS GERAÇÕES E EM OUTROS PESQUISADORES DE
REFERÊNCIA PARA O ENSINO DE QUÍMICA?
Falar da minha trajetória como educador e pesquisador é sempre bastante
curioso. Na verdade, eu sou químico desde menino, sempre tive uma fascinação
muito grande pela química. Eu tinha um “laboratórioem casa quando eu tinha
entre 10 e 11 anos, e já aprontava bastante das minhas. Eu me lembro bem de um
episódio bastante interessante na época. Eu havia conseguido ácido sulfúrico
concentrado com meu colega que fazia o ensino médio e então fiz alguns
experimentos, e, como não tinha um laboratório propriamente dito, eu realizava
esses experimentos no pátio de casa. Minha mãe utilizava um expediente de
quarar roupa, colocava os lençóis no sol. Quando ela fez isso, depois de eu ter feito
minhas experiências com o ácido sulfúrico, apareceu cada buraco enorme nos
lençóis, um maior que o outro. Imediatamente ela adivinhou quem tinha feito
tudo aquilo. Ela pegou o meu “laboratório”, que ficava no pátio da minha casa, e
jogou tudo fora. Isso me marcou muito na época.
Na verdade, eu tinha uma atraçãodica pela química, na época a química era
uma coisa de brincadeira para mim. Eu estudei o ginásio no Colégio Aplicação que
hoje é o Centro Pedagógico da UFMG, que ficava perto da FAFICH (Faculdade de
Filosofia e Ciências Humanas). Eu vivi intensamente esse período de repressão da
ditadura militar, período muito difícil. Eu entrei no ginásio em 1967, eu era
adolescente, mas tinha essa influência do que acontecia na FAFICH, porque os
estudantes todo dia faziam manifestação de rua, e de repente, chegava à polícia e
mandava os alunos do colégio para casa. Nós, ao invés de irmos embora, íamos
para a casa de um amigo que morava ali perto, ou seja, a gente assistia tudo de
camarote. Assim, eu acabei vivento esse período de forma muito intensa, o que
acabou me dando uma grande motivação política, o que carrego por toda minha
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trajetória de vida. Quando eu fui para o chamado científico, fomos para um colégio
experimental da própria universidade. Transformaram o Colégio Universitário da
UFMG num outro, chamado Colégio Integrado, com uma disposição bastante
interessante, porque as disciplinas eram oferecidas em três módulos diferentes,
onde, para cada módulo, era obrigatório fazer certa quantidade de crédito, então
você podia compor o currículo como você queria. Por exemplo: eu tinha interesse
em química e fiz todas as disciplinas de química, mas não fazia nenhuma disciplina
de biologia, até mesmo porque eu não gostava de biologia, ou seja, dessa maneira
bastante individual se compunha o currículo de cada aluno.
Em função da reforma do ensino sico, esse colégio durou apenas um ano.
A reforma da universidade determinou que não poderia haver duas unidades com
a mesma finalidade. Já havia o Colégio Técnico, que estava de acordo com a nova
reforma da LDB, pois introduziu o ensino técnico. Desta forma, o Colégio Integrado
acabou. No momento em que fomos para o Colégio Técnico, passei para o Curso
Técnico em Química. Foi neste exato momento que eu passei a estudar
verdadeiramente a química, isso foi em 1972. Acabei concluindo o Curso Técnico
e trabalhei, como técnico em química, na indústria.
Assim, eu fui fazer o curso superior em química. Lembrando que o curso
técnico que eu fiz foi maravilhoso, nível excelente, e no curso superior fiquei
esperando que eu fosse aprender algo de química que fosse suplantar aquilo que
eu havia aprendido no curso técnico, e isso não aconteceu. Um exemplo para
ilustrar o que digo: eu tive dois semestres de química orgânica no colégio, depois,
eu tive quatro semestres de química orgânica no curso superior que não
suplantaram aquilo que eu tive no Colégio Técnico. Isso acabou me dando uma
certa frustração, quer dizer, com o curso e os professores em geral. Foi nesse
momento que eu fui para a Faculdade de Educação, e por um acidente de pura
sorte, eu tive professores muito bons, todos bons. Eu fiz bacharelado e
licenciatura. Na licenciatura eu fui aluno do professor Miguel Arroyo, da saudosa
Agnela Giusta, ou seja, professores que fizeram a minha cabeça enquanto futuro
professor. Foram eles a minha verdadeira inspiração, foi a partir deles que escolhi
a educação orientado por esses professores.
Quando me formei, eu tive a opção de fazer o curso de mestrado em
bioquímica, mas surgiu uma chance de seguir a carreira acadêmica: entrei na
universidade em 1983 como auxiliar de ensino, pois eu tinha apenas a graduação
e, consequentemente, fiz o mestrado e o doutorado em educação lecionando
na universidade. Essa mudança de foco aconteceu devido a todas essas
circunstâncias: na verdade era para eu ser atuante na química dura.” Mas por ter
feito o Colégio Técnico, isso acabou me dando uma base muito boa em química.
Essa base não foi suplantada na universidade em quase nenhuma área. A única
área na qual ela foi suplantada foi à físico-química, físico-química moderna,
química quântica. Mas aí já era tarde.
Assim, eu acabei me fixando na área da educação e naturalmente acabei
fazendo o concurso para a área de ensino de química na Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG), onde tinha o departamento de metodologia, que é chamado
de Métodos e cnicas de Ensino, onde tinha uma cadeira, chamada de Prática de
Ensino de Química. Assim, como professor do ensino superior, fiz a minha
dissertação de mestrado sobre a história dos livros didáticos de química dedicados
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à Educação Secundária. No doutorado fiz minha tese sobre a noção de Perfil
Conceitual.
No doutorado eu acabei fazendo uma bolsa sanduiche em Leeds, na
Inglaterra. Eu ia toda semana para São Paulo. Ia na terça e voltava na sexta feira.
Eu ficava em um apartamento temporário que a própria USP fornecia para os
estudantes, e isso me permitiu que eu me dedicasse profundamente ao
doutorado. Eu resolvi aproveitar essa bolsa sanduíche para ter contato com
pesquisadores no exterior e principalmente aprender a língua inglesa, que tem um
grande valor, e poder viver em uma outra cultura. Eu acabei indo com minha
família, minha esposa e meus dois filhos que eram pequenos. Fui trabalhar com
Rosalind Driver, uma pesquisadora de grande destaque na área das Concepções
Alternativas. Ela tinha uma publicação de 1978 (com o Jack Easley) que era um
texto seminal na área, chamado Pupils and paradigms: A review of literature
related to concept development in adolescent science students. Tinha também um
livro editado, junto com a Edith Guesne e a Andrée Tiberghien, chamado Children’s
ideas in Science, no qual eram descritas as principais concepções alternativas em
relação a conceitos básicos da ciência, como por exemplo, calor, reações químicas,
força, etc.
Eu acabei me entrosando bastante com todo o grupo. Depois de seminário
meu, no qual apresentei a nascente noção de Perfil Conceitual, eles me chamaram
para confeccionar um paper, no qual eles explicitavam uma transição do
construtivismo individual, que tinha por base as obras de Piaget, para um
construtivismo social, que se baseava em Vigostki. Isso ia ao encontro das minhas
leituras e me deparei com várias novas leituras nessa dimensão. Nessa época lia-
se em Leeds Edwards e Mercer, que são dois autores Ingleses que escreveram
Common Knowledge: the development of understanding in the classroom, que eu
traduziria como “Conhecimento Compartilhado”. Também tinha o Michael Cole
que escreveu com Newman e Griffin um livro chamado The Construction Zone:
working for cognitive change in school, inspirado no conceito de Zona de
Desenvolvimento Proximal (ZDP) de Vigotski. Tinha ainda o Talking Science, do Jay
Lemke. Esse conjunto acabou abrindo minhas perspectivas, pois eu tinha apenas a
formação Piagetiana, que adquiri ao trabalhar no grupo da Anna Maria Pessoa de
Carvalho, que era minha orientadora no Brasil, uma pessoa excepcional em termos
humanos e de qualidade de trabalho.
Então eu fui pra Inglaterra para terminar um capítulo da minha tese que era
referente à análise do discurso da sala de aula, mas fiz muito mais do que isso. Esse
artigo, para o qual fui convidado, saiu em 1995. Ele é muito citado, tornou-se um
clássico do socioconstrutivismo, e depois eu traduzi para a revista Química Nova
na Escola, e saiu em 1999 como “Construindo conhecimento Científico na sala de
Aula”. O contato com esse grupo de Leeds me abriu as portas para o mundo, pois
a partir desse momento eu passei a ser convidado para eventos na Europa, depois
na Ásia, na África e até nos Estados Unidos. Eu também passei a produzir artigos
em Inglês, minha produção com Leeds foi muito intensa, eu fiz uma parceria com
Philip Scott, que na época ainda não era professor, era apenas assistente de
pesquisa de Rosalind Driver. Philip Scott e eu viramos grandes amigos. Infelizmente
ele se foi em 2011.
Eu acabei escrevendo um livro com ele, que é bastante citado na Europa em